Há um momento em nossas vidas que o insustentável não pode mais ser ignorado. É acho que a palavra é essa . Ignorado! Nunca fui das madrugadas, minha mãe dizia "deita e acorda coma a galinhas" até mesmo no período da faculdade... não conseguia virar como meus colegas. Embora amar a programação das rádios pós zero horas, meu sono era sempre prontífico. Acontece que chega uma etapa da agonia quase permanente de ser que ou se levanta ou se levanta. E foi o que decidi fazer. Era perturbado por esses insignificantes ruinosos da paz noturna, pragas de travesseiro zombeteiro de uma figa...mesmo encapsulado em meu lençol violeta eles-elas-, não davam trégua
Foi aí que decidi levantar, ir até a cozinha e acender a luz crua sob minha cara revolta, bravia, pesada de falso sono. Tomei agua e quis tomar vinho. Existia esse presente! Liguei a rádio . Era a educativa tocando saudosas nacionais. Me ajeitei no improvisado de sofá e me pus a ouvir a vizinhança dormir. A rua que mesmo quase as duas fazia barulho de máquina remendando piso da rua. A plenária dos cães e seus uivos lobisomicos, um farfalhara de árvore o outro. Não escapei total dos pernilongos, ma s me sentia no controle desses infelizes. Na radio um samba velho, cadente me caia bem junto ao meu lençol pra casal de elástico violeta é meu hálito de vinho meio seco. Uma nova cadência veio. Chamava por Iracema , dizia de amor , lembrança... recordei que eu não tinha lembranças de amor algum, afinal não o vivi , ou não sei o que é, ou não me interessa sabê-lo, ou nem acredito o que seja isso. E já que chegamos neste ponto ... acho que é hora de me dar de vez com esse assunto. É quase o mesmo zumbido insuportável daqueles insetos. Não vai embora, sempre em doses de ilusão, nunca certeiro, nunca direto, nunca aconteceu. Não sei se é condicional pra se viver , se é coisa do mercado cinematográfico ou uma espécie de hábito muito antigo do ser humano como fazer coco sentado e dormir as noites. É angustiante como espantar pernilongos.