Começar pede muito da gente. Conectar os fios la dentro e dá
start, vai, go, go, se joga, inicie. Comecemos então pois pela morte. Sim, morrer. Dormir o sono de Hamlet. Desligar esse aparelho criador de miragens
infecundas e destrutivas para toda a massa que se esganiça por viver. Logo pela
manhã li sobre morte. Mataram alguém que
não conheci. Interromperam o fluxo de um homem e isso assim, sem mais nem
menos. Estão matando direitos e povos em
nosso país. Querem exterminar a vida. Dessa vez não posso dizer só de vida...
porque por todo canto surgem manchas violetas, manchas magentas, manchas
roxeadas clamando justiça e piedade. O
verão parece deixar lisérgico o ar. Tenho só vinte e um bocado e já sinto todo
esse peso de ser solitário e angustiante. Meus velhos ainda nem velhos são.
Moram longe e nem sei o que pensam ao certo do que me torno a cada dia. Não
ligo nem mando avisos. Me dou aqui nessa babilônia como posso. Sou teimoso com
chifres em ascendência, metódico no sol. Coube a lua ser a luz provedora de
vida e esbanjo. Enjoei da minha janela antes preferida. Nem a jardineira me
ganha mais. Só penso em desencantos.
Cheiro a limão siciliano. Uso nos banhos gélidos que ando tomando. Isso sim tem
me revigorado dessa estufa de gente curta de sabiedade e tolerância. Não sei
que é paixão. Inventei alguma coisa nesse sentido e me senti idiota sem
endereço pra chorar. Não sei realmente o que da na gente de adquirir os odores
e os mais pormenores detalhes da pestana do outro... Coisa de gente sem
serviço, diria algum mais velho da família. E talvez seja mesmo essa de mente
vazia oficina do diabo. Não pedi para enterrarem
meu resto nas raízes de um limão capeta. Dai fui espichando assim, cítrico
desde menino, azedo quando me falta desejo, capeta quando sinto o ar cortando
as narinas em uma velocidade de trinta cavalos pretos em devastação pela
cidade. Converso com um mistério. Ele sabe tudo mesmo sobre minhas angústias. Sussurro
ao mistério quando me atropela o medo, ele me escuta, me dá a cara em guardião.
Herdei um pouco da bruxaria das ancestrais.
Ontem, por exemplo, premeditei sua resposta. Não demorou seu retorno camuflado em palavras
de elogio e medo, sempre o seu medo se pondo a frente desse sujeito oblíquo,
mas interessante. Melhor seria talvez viver em outro país. Onde as ruas fossem
para os transeuntes e ciclistas, hospitais com cheiro de gerânios pela paz
plantada ali por cuidado e recursos, escolas em todas as esquinas que
escutassem os aprendizes e promovessem excursões para plantar e criar rodas nas
praças centrais. Essas praças teriam bebedouros e gentes proseando, jogando coisas de antigamente e fazendo
alianças de viverem bem e em comunhão. Tudo parece ilusão e por isso o
desencanto é que é servido à mesa já sem toalha, já sem se manter em pé. Eu miro a vista toda e busco algo
surpreendente, algo que me tire a paz, que me esquente a cabeça. Sou todo preto, não distingo a brancura toda
presente no mundo. Não sei o que ataca dentro a querer liquidar um coração.
Firmo tratados de teatro e literatura, contribuo com amigos e eles comigo.
Desejo bons dias e boas noites. Espero não tardar nosso acorde, nossa nota mais
primal, mais dinâmica, mais artística. Viro goles de saúde, mastigo dores entre
os caninos. Porque não fiquei menino, Peter, criando cidades de barro,
harmoniosas e inocentes ?! Logo logo virá a nova ordem. Logo, logo estaremos
danados. Eu ando conversando com o
mistério. Ele há de me porvir um lugar de benfazeja e muita terra boa para
deitar e nascer outra vez.
17/01/19