quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Uma imagem


Janelas lado a lado

cor bege a madeira
quatro vidros em cima.
Vasinhos sujos de terra
com florzinhas amarelas
margeando a rua de casebres
agarrados do meu barroco. 
Cozinha escurinha,
cumprida meio corredor, ornada 
de panelas dependuradas,
resto de comes, cheiro de lixo
ruim, geladeira zunida de ronco. 
O todo um cinema e o clímax
foi ver um corpo ,
nu, lumiado
pela luz da vela
que queimava acima das cabeças,
atirar num golpe um prato de arroz
janela afora. 
Aberto de vestes, 
aberto pra janela 
simpática. 
Um recepiente 
cheio de arroz que ele 
lançou chuva no telhado da rua. 
Desejei ser cineasta ou ator dessa cena.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Ritual

Tal como 
uma planta se fez
em terra preta,
úmida, eminhocada;
tal fez-se nós. 
Somos brotejantes
racionários de terra. 
Somos ciclos...,
da lua, da água,
do fogo, da terra.
Lua que cálida
e puramente branquida
muito misteriosa
entra maré dentro,
desata corações pernoitados
e atravessa as cercas dos arames farpados,
virando bola nos chifres do gado. 
Ai a água clara, corrida de chuva
fresca e fria duma madrugada inteira;
empoçada pra cão secar remela e sede.
Um furor de fogo vivaz, alaranjado e azul
bailante. Presente no meu corpo que dança o seu na sua boca. 
E no fim a terra que nos uniu;
deu alento, alimento e um leva: o ritual. 



sábado, 5 de dezembro de 2015

Um casamento barroquino

Nesse agora da minha nova vista
acontece um disparate de flaches no céu.
O casório noturno encaminha a noiva
que se esconde por de trás dos castelares
algodões aluminados e deixa correr pra trás
um cumprido véu purinho,
muito aparecido névoa.
Lá em cima faz- se muito barulho.
Parece festa de arromba!
Os convidados esbravejam, se
axaltam nos brindes trovoados.
Cá embaixo roda uns murmurinhos
de sapatos corridos pelas pedras ensaboadas.
Daí inicia uma queda de arroz branco, frio e forte
que nem o amor deles.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Organismo

Órgão
do peito
pleteia
um
organismo
que é seu,
que se organiza
agora ao meu.
Somos nós
organismos
em órbitas
separadas
por energias
variadas.
Somos organóides
vivos, bactericideos
abrigam nossas
veias e transportam
em suas costas
caimbras.
Roga!
Orgasmos
estão tatuados
em nossa pele.
Orgasmos
em pausas,
asmáticos,
afogados
nos umbigos,
boca e nariz.
Um universo
quente desenhado
em suas mãos
eclipsava nas minhas
quando o nosso
universo se compunha,
rimava e dizia alto
o nosso um só
corpo flamejante.
Hoje a chuva
atravessa  nosso
lençol...
A roupa no varal que
cobria nossas desenvergonhas...
Você saiu pela porta antes do sol
sair da dele, mas deixou
a sua parte do organismo
comigo e a minha....
nunca saberei se em você ficou.