sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

o retorno de saturno

 mirando a minha atual janela

ouço o amor pixelado de Céu

e escuto os cães ladrarem

ao eco das escolas de samba

nunca estive tao confuso na vida

nunca estive tão confuso e acertivo

ou intuitivo ou desconfiado ou

determinado ou aterrado ou uma

porrada de coisas na cabeça.

vinte e oito coisas pra fazer

quero fazer coisa alguma

quero boa vida porque não?

quero saborear o café sem que

me queime a língua 

quero ir a cachoeira sem 

ter de ler um edital antes

só pra poder refrescar as ideias

quero ser o frescor, sempre. 

vou ou fico? ai que indecisão

valhei-me seu exu que é o caminho

próprio. eu sou caminho próprio?

quero ir mas quero ficar,

como que faz? acho que fico

na dúvida eu fico.

desconfiado que sou

destemido que sou

eu fico pra ver o que vai dá

indo eu verei

e ficando verei também

ai coisa chata tomar 

decisão. 

não sabia que libra

era signo tão fixo em mim

sujeito tão virginiano. 

domingo, 22 de março de 2020

desinfinitude

Acordei e morri sete vezes no rumo cinza dessa manhã. Minha cama anda quente, cheia de besteiras embaixo; no lençol cheio de vontades, no travesseiro sonambulas miragens... Na janela corre um dia morto, frívolo, chapadão. Há descontentamento em meu sexo. Acordei e morri sete vezes essa manhã, e em três delas você me matou assim: primeiro asfixiado no teu cheiro rude de frenesi cortante. Depois à mordidas ao pescoço por seus caninos afiados e, por fim, morri pelo desejo de ter seu pêlo ao meu, o calor da sua mão em minhas costas, o vibrar do seu sexo à minha boca. Acordei depois...não morri de tudo. Mas fiquei a esmo, ali, derivante , procurando vestiginosas na cama, tendo sede nos olhos, procurando a sua saudade, a minha desinfinitude. Desenhando minha juventude pérfida num dia desanimado carecendo à sorte. 

Uma manhã do ano 17

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Limão capeta



Começar pede muito da gente. Conectar os fios la dentro e dá start, vai, go, go, se joga, inicie. Comecemos então pois pela morte.  Sim, morrer. Dormir o sono de Hamlet.  Desligar esse aparelho criador de miragens infecundas e destrutivas para toda a massa que se esganiça por viver. Logo pela manhã li sobre morte.  Mataram alguém que não conheci. Interromperam o fluxo de um homem e isso assim, sem mais nem menos.  Estão matando direitos e povos em nosso país. Querem exterminar a vida. Dessa vez não posso dizer só de vida... porque por todo canto surgem manchas violetas, manchas magentas, manchas roxeadas clamando justiça e piedade.  O verão parece deixar lisérgico o ar. Tenho só vinte e um bocado e já sinto todo esse peso de ser solitário e angustiante. Meus velhos ainda nem velhos são. Moram longe e nem sei o que pensam ao certo do que me torno a cada dia. Não ligo nem mando avisos. Me dou aqui nessa babilônia como posso. Sou teimoso com chifres em ascendência, metódico no sol. Coube a lua ser a luz provedora de vida e esbanjo. Enjoei da minha janela antes preferida. Nem a jardineira me ganha mais.  Só penso em desencantos. Cheiro a limão siciliano. Uso nos banhos gélidos que ando tomando. Isso sim tem me revigorado dessa estufa de gente curta de sabiedade e tolerância. Não sei que é paixão. Inventei alguma coisa nesse sentido e me senti idiota sem endereço pra chorar. Não sei realmente o que da na gente de adquirir os odores e os mais pormenores detalhes da pestana do outro... Coisa de gente sem serviço, diria algum mais velho da família. E talvez seja mesmo essa de mente vazia oficina do diabo.  Não pedi para enterrarem meu resto nas raízes de um limão capeta. Dai fui espichando assim, cítrico desde menino, azedo quando me falta desejo, capeta quando sinto o ar cortando as narinas em uma velocidade de trinta cavalos pretos em devastação pela cidade. Converso com um mistério. Ele sabe tudo mesmo sobre minhas angústias. Sussurro ao mistério quando me atropela o medo, ele me escuta, me dá a cara em guardião. Herdei um pouco da bruxaria das ancestrais.  Ontem, por exemplo, premeditei sua resposta.  Não demorou seu retorno camuflado em palavras de elogio e medo, sempre o seu medo se pondo a frente desse sujeito oblíquo, mas interessante. Melhor seria talvez viver em outro país. Onde as ruas fossem para os transeuntes e ciclistas, hospitais com cheiro de gerânios pela paz plantada ali por cuidado e recursos, escolas em todas as esquinas que escutassem os aprendizes e promovessem excursões para plantar e criar rodas nas praças centrais. Essas praças teriam bebedouros e gentes proseando,  jogando coisas de antigamente e fazendo alianças de viverem bem e em comunhão. Tudo parece ilusão e por isso o desencanto é que é servido à mesa já sem toalha, já sem se manter em pé.  Eu miro a vista toda e busco algo surpreendente, algo que me tire a paz, que me esquente a cabeça.  Sou todo preto, não distingo a brancura toda presente no mundo. Não sei o que ataca dentro a querer liquidar um coração. Firmo tratados de teatro e literatura, contribuo com amigos e eles comigo. Desejo bons dias e boas noites. Espero não tardar nosso acorde, nossa nota mais primal, mais dinâmica, mais artística. Viro goles de saúde, mastigo dores entre os caninos. Porque não fiquei menino, Peter, criando cidades de barro, harmoniosas e inocentes ?! Logo logo virá a nova ordem. Logo, logo estaremos danados. Eu ando conversando  com o mistério. Ele há de me porvir um lugar de benfazeja e muita terra boa para deitar e nascer outra vez.


17/01/19

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Elemento



Acabo de forrar o estômago,
o baixo elemento das viscosas escuras.
Faz uma noite emocionada em minha garganta
Acabou o desfile...
Acabou-se a carne. Inicia-se a vereda Cristiana
Elementos, elementos, onde estão meus amigos?
Pagam alugueis, voltam ao interior, engravidam e se casam.
A gente não sabe ser dor ou ser gozo
Estamos confundidos numa massa pastosa , barrenta, sufocados.
Elas gritam! Eles abafam...
O poder manda matar e faz papel de ridículo.
Elemento eu...pobre preto elemento buscando saída
Ouço mãe no telefone. Ela me disse sua maior dor- minha chegada.
Ela me diz seu maior sonho – a casa própria.
Que diabo esse elemento que não transfigura, muda endereço, renasce outro
Que pindorama alvejado em branco e rubro. Que amanhã pra essa noite que já choveu
Já se deitou, revira agora em calor e pesadelos com a tarifa, com a previdência, com a lama, com os povos, todos os elementos que cultuam essa terra de fazer tremer ao samba, a bala, ao choque, ao regime.
Fico na margem a ver tudo se indo, se formando, gestando, ruindo, suando...
As vezes sinto-me anjo negro, asas curtas e muita mas uma baita de uma astúcia pra levantar arreganhado pra rua e pra quem me olhar...
Se dou bom dia nem todo dia. Nem todo dia tem café.
Cultuo todos os almoços.  Comida é sagrada!
Saudade de água de bica...vinha com proteção.
Preciso falar com o mano. Tirou a cela. Ta livre ate não sei quando... preciso falar com ele. Pedir cuidado, pedir por nossa mãe ...pedir por ele mesmo.
Preciso ver os sobrinhos. São eles os elementos da gente.
Preciso ver a mãe. Saudar a sua vida, tomar a benção com o olho, sentir o seu colo.
Não adianta, coração. Não dá mais pra te deixar conduzir o carro. Agora vou com os pés , eles sabem do elemento terra.


06/03/19

Uma montanha derrete


Uma montanha derrete
O prego se curva
O concreto trinca
Sua mensagem não chega- nem vai chegar.
Seu fantasma me ronda...
Uma caneca quente de café me faz conforto
Uma ligação de uma amiga me faz amado
Uma montanha derrete
O prego se curva
O concreto trinca
Essa tarde me trouxe o choro do concreto que armava
Essa tarde me trouxe o choro que se curvava do meus olhos escoando direto à garganta
Essa tarde me trouxe o choro que derreteu o topo da minha cabeça às palmas de minhas mãos.
Eu não sou forte o bastante
Eu sou vulnerável o bastante
Eu não sou fraco o bastante
Eu não sou super humano...
sou uma montanha que derrete,
um prego que se curva,
um concreto que trinca.

05/05/19

Ipê radiofônico


O Ipê rosa despencava-se em pluma tempo
ate o asfalto que corria as borrachas de caminhões.
Disputava a beleza: As terminações em buquês,
os galhos ressequidos,em estado de farelos, soltando partículas.
O céu tingido em laranja e vermelho
A poluição era bonita...
A cerca de arame soltando as pipas
Os chinelos remendados e de tiras trocadas.
E ainda assim o Ipê. Ressequido e majestoso Ipê.
Eu radioativo traspassado ao Ipê
Ele morto vivo florescendo e despencando.
Queria soltar as ondas prum oco de remoto
Queria estacionar numa embalagem de papel
Lá de onde nasce a primeira intuição
Colher ao pé o primeiro desfirme e aterrar mais um bocado.
É que a grandeza de um Ipê não está em sua primavera
Deve o Ipê ser tão observado por seu fúnebre desviver.

Ouviram um diz que diz

Vieram com a notícia: Descobriram um novo planeta!
Muito similar a Terra, uma porcentagem x maior
água  e camada protetora
trinta anos luz daqui
quem vai pra lá está a quantos baites daqui?
quem já esta lá quantos anos tem agora?
quem estará aqui quando saírem as primeiras comitivas e caravanas?
Critérios, sorteios, matanças, quantas guerras serão precisas?
A trinta anos de distância daqui mui provavelmente já não precisaram mais da internet pra se organizarem em massas
Quem sabe suas políticas são sessenta anos luz de nós...
Se possuem geladeiras, televisores, agrotóxicos, enlatados, farmacêuticos, danças, hinos, jornais eletrônicos, jardins, crianças feias pela fome, buracos em ruas, rios limpos, céu rosa ou esverdeado, pirâmides, moedas, lojas e sapatarias, deusas e castelos, florestas e quedas d’águas...
Quem saberá a trinta anos luz daqui!
Pra onde iremos daqui trinta anos luz?
e até a chegada o que veremos, por onde se passará...algum viaduto interestelar que cruzará oi quintal de uma dimensão , um túnel do tempo com escala em outro planeta ainda não descoberto e por isso resplandecente em sua originalidade, intacto por sua natureza paralela... pense nas luas que veremos no caminho... suas assombrações, suas cavidades, suas cristalizações... que caminho será esse se ao sair daqui já não teremos mais a noção que aqui se tem... e depois extra terra , extra, extra, extra rádio. 

10/09/19

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Há um momento em nossas vidas que o insustentável não pode mais ser ignorado. É acho que a palavra é essa . Ignorado! Nunca fui das madrugadas, minha mãe dizia "deita e acorda coma a galinhas" até mesmo no período da faculdade... não conseguia virar como meus colegas. Embora amar a programação das rádios pós zero horas, meu sono era sempre prontífico. Acontece que chega uma etapa da agonia quase permanente de ser que ou se levanta ou se levanta. E foi o que decidi fazer. Era perturbado por esses insignificantes ruinosos da paz noturna, pragas de travesseiro zombeteiro de uma figa...mesmo encapsulado em meu lençol violeta eles-elas-, não davam trégua
 Foi aí que decidi levantar, ir até a cozinha e acender a luz crua sob minha cara revolta, bravia, pesada de falso sono. Tomei agua e quis tomar vinho. Existia esse presente! Liguei a rádio . Era a educativa tocando saudosas nacionais. Me ajeitei no improvisado de sofá e me pus a ouvir a vizinhança dormir. A rua que mesmo quase as duas fazia barulho de máquina remendando piso da rua. A plenária dos cães e seus uivos lobisomicos, um farfalhara de árvore o outro. Não escapei total dos pernilongos, ma s me sentia no controle desses infelizes. Na radio um samba velho, cadente me caia bem junto ao meu lençol pra casal de elástico violeta é meu hálito de vinho meio seco. Uma nova cadência veio. Chamava por Iracema , dizia de amor , lembrança... recordei que eu não tinha lembranças de amor algum, afinal não o vivi , ou não sei o que é, ou não me interessa sabê-lo, ou nem acredito o que seja isso. E já que chegamos neste ponto ... acho que é hora de me dar de vez com esse assunto. É quase o mesmo zumbido insuportável daqueles insetos. Não vai embora, sempre em doses de ilusão, nunca certeiro, nunca direto, nunca aconteceu.  Não sei se é condicional pra se viver , se é coisa do mercado cinematográfico ou uma espécie de hábito muito antigo do ser humano como fazer coco sentado e dormir as noites. É angustiante como espantar pernilongos.