quinta-feira, 10 de novembro de 2016

rotina ingrata

Todo dia ela liga o rádio,
coa o café, abre a casa,
chama pelos filhos.
Todo dia ela faz o almoço,
os prepara para a escola,
grita, penteia, banha, ama,
abençoa.
Todo dia ela os aguarda,
briga, se desespera ao
ver a bagunça nascer, os
bota pra dormir.
todo dia ela é mãe,
todo dia é só ela.
Eles nunca estão,
eles não sabem os horários de seus filhos,
eles não sabem como crescem, como choram,
quando tem fome, quando sentem frio.
Eles são frios, são homens desalmados,
nunca pais.
Ela anda cansada, também pudera...
Todo dia é ela.

Cigarra

A primeira cigarra 
antes do alvorecer
O primeiro cigarro,
primeiro mesmo já não era...
A senhora, em meio a pedidos de cervejas
" Fuma não filho..."
" Não fumo, é só esse, de vez em quando"
É pra aliviar. 
"As pessoas fumam pra desafogar e sopram
desejando sair na dança esfumaçada
 todo o equilíbrio que pesa as pernas."  
A cigarra fumada cricrando,
eu criando fumaça,
cuspindo a noite, formando
tonturas, pensando poemas. 
Tragadas em hiatos de gargalhadas,
cigarras fumadas,
minha saia rasgada, 
a minha cara lavada pra essa rua azul cismada. 
Os lábios apertam outra dimensão,
querem beijar outro alguém de outra estação. 
Uma nova alvorada, 
eu ainda acredito 
tenho a cigarra,
a companhia boa da cigarra. 
Só a fumaça que entra
e sai. Sai e cricra 
cri ca.
Se cria outra palavra. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Algo pra se ler depois

Eu estou indo.
Eu nunca fui,
eu, que quase
sempre estive tanto perto.
E digo quase sempre porque
o outro tanto era distraindo
desse tanto tudo. Agora
tudo fica.
Eu vou.
Indo eu levo
quase tudo.
E digo quase porque
tudo é sempre.
E isso é muito pras solas
que me levam.
Estou mas vou indo.
Não estou. Avisem
que já fui.
E não estaram mentindo.
Não contem os meses.
Eu não os contarei.
O tempo não para,
disse um poeta.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

In quanto

Por todo o quanto um lugar
um relâmpago
os telhados
grampos nas cabeças
os fios viaduto de formigas.
De tardinha um pouco de sol
um pouco de céu
um tanto de vento
in quanto vozes
de lá
recreio de crianças
ali
pulam os muros
salpicam nas ruas
empinam nos morros.
E sol que é pouco aqui
esquenta mais a banda
de lá
o sino treme
em mim
fazendo eu repicar
afogar da fome
de amar
do lado que é seu.
Por todo o que é isso
te vejo
e penso
Podia ser bem mais que aquilo
e in quanto
nada
um menor daquilo
que foi todo.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Doce

...tem de ir, é assim mesmo. 
Mas vamos juntos. 
Horizontes alaranjados
nos olhos de cada um...
céu cortado em branco e azul
e uma vontade muito grande...
estarmos juntos.

 Argilas fundidas
em textura moldável, fluida.
Leveza nos pés que se levantam
sem força. 

É o sopro do novo tempo.
(algo "pensado" pela manhã de um dia que me ganha
confortável, em companhias aconchegantes,
num lugar de raíz e furor).

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A canção que preenche
meu quarto compete
com o som
esbravecido da chuva.
A água do céu
judia dos vidros da minha vista
pra rua, pra ponte
onde atravessam as sombrinhas
de pernas .
A chuva esgarnecida
recorre ao frio,
escorre os degraus,
desliza pelos fios do poste.
Os pingos ficam platinados
e despencam em camera lenta.
O vidro escorre como
escorre o meu corpo.
Não se tem vontade.
Está-se muito a vontade.
A vontade é de ficar ao meu som,
ao som da brava chuva que parece
me aconselhar ou só lavar o meu dia.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Outra vista

A minha vista favorita,
depois de você,
é a tal ladeira em S.
Por aqui costuma enuvecer
por todo o dia...
Porém, quando vem
dando três, quatro horas
se tem uma clárida tarde.
Um tacho entorna todo o
céu em ouro lá por de trás
da São Francisco.
A ladeira em S alcança
a castelar Santa Efigênia
 dos pretos d'ouro.
Ainda assim,
disso tudo que pude ver
e te conto, o auge é ver
a corrida bem ensaiada das
fiéis andorinhas findando
a latente gema do sol.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Primeiro do ano

Hoje é primeiro do ano.
lojas fechadas,
gente de branco.
Promessas,
ondas revirando as oferendas,
almoços do dia primeiro.
Desejo de paz,
de emagrecer,
de amar.
Amar mais agora
que a carne parece dilatar.
Ir viajar pro nordeste,
ou Argentina.
Adotar um cãozinho,
namorar alguma arte,
esperar o carnaval.
Hoje é primeiro do ano
e eu o quero tanto
como os outros primeiros
e segundas, terças,
sextas perdidas,
domingos de brisa.
Entre chuvas
ventanias, quero
estar dentro,
ser corpo junto
a tudo, a todos...
Eu espero brasa
e vento.