quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Limão capeta



Começar pede muito da gente. Conectar os fios la dentro e dá start, vai, go, go, se joga, inicie. Comecemos então pois pela morte.  Sim, morrer. Dormir o sono de Hamlet.  Desligar esse aparelho criador de miragens infecundas e destrutivas para toda a massa que se esganiça por viver. Logo pela manhã li sobre morte.  Mataram alguém que não conheci. Interromperam o fluxo de um homem e isso assim, sem mais nem menos.  Estão matando direitos e povos em nosso país. Querem exterminar a vida. Dessa vez não posso dizer só de vida... porque por todo canto surgem manchas violetas, manchas magentas, manchas roxeadas clamando justiça e piedade.  O verão parece deixar lisérgico o ar. Tenho só vinte e um bocado e já sinto todo esse peso de ser solitário e angustiante. Meus velhos ainda nem velhos são. Moram longe e nem sei o que pensam ao certo do que me torno a cada dia. Não ligo nem mando avisos. Me dou aqui nessa babilônia como posso. Sou teimoso com chifres em ascendência, metódico no sol. Coube a lua ser a luz provedora de vida e esbanjo. Enjoei da minha janela antes preferida. Nem a jardineira me ganha mais.  Só penso em desencantos. Cheiro a limão siciliano. Uso nos banhos gélidos que ando tomando. Isso sim tem me revigorado dessa estufa de gente curta de sabiedade e tolerância. Não sei que é paixão. Inventei alguma coisa nesse sentido e me senti idiota sem endereço pra chorar. Não sei realmente o que da na gente de adquirir os odores e os mais pormenores detalhes da pestana do outro... Coisa de gente sem serviço, diria algum mais velho da família. E talvez seja mesmo essa de mente vazia oficina do diabo.  Não pedi para enterrarem meu resto nas raízes de um limão capeta. Dai fui espichando assim, cítrico desde menino, azedo quando me falta desejo, capeta quando sinto o ar cortando as narinas em uma velocidade de trinta cavalos pretos em devastação pela cidade. Converso com um mistério. Ele sabe tudo mesmo sobre minhas angústias. Sussurro ao mistério quando me atropela o medo, ele me escuta, me dá a cara em guardião. Herdei um pouco da bruxaria das ancestrais.  Ontem, por exemplo, premeditei sua resposta.  Não demorou seu retorno camuflado em palavras de elogio e medo, sempre o seu medo se pondo a frente desse sujeito oblíquo, mas interessante. Melhor seria talvez viver em outro país. Onde as ruas fossem para os transeuntes e ciclistas, hospitais com cheiro de gerânios pela paz plantada ali por cuidado e recursos, escolas em todas as esquinas que escutassem os aprendizes e promovessem excursões para plantar e criar rodas nas praças centrais. Essas praças teriam bebedouros e gentes proseando,  jogando coisas de antigamente e fazendo alianças de viverem bem e em comunhão. Tudo parece ilusão e por isso o desencanto é que é servido à mesa já sem toalha, já sem se manter em pé.  Eu miro a vista toda e busco algo surpreendente, algo que me tire a paz, que me esquente a cabeça.  Sou todo preto, não distingo a brancura toda presente no mundo. Não sei o que ataca dentro a querer liquidar um coração. Firmo tratados de teatro e literatura, contribuo com amigos e eles comigo. Desejo bons dias e boas noites. Espero não tardar nosso acorde, nossa nota mais primal, mais dinâmica, mais artística. Viro goles de saúde, mastigo dores entre os caninos. Porque não fiquei menino, Peter, criando cidades de barro, harmoniosas e inocentes ?! Logo logo virá a nova ordem. Logo, logo estaremos danados. Eu ando conversando  com o mistério. Ele há de me porvir um lugar de benfazeja e muita terra boa para deitar e nascer outra vez.


17/01/19

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